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O Uniforme: Memórias e Desafios de Uma Mãe Enlutada

O Uniforme: Memórias e Desafios de Uma Mãe Enlutada

O Uniforme: Memórias e Desafios de Uma Mãe Enlutada

Eu sou uma mãe e sobrevivente enlutada do meu filho Pietro que foi vítima de suicídio em janeiro de 2022. Meu filho lindo e muito amado estava com 18 anos e dez meses.

Muitas coisas acontecem no dia a dia de um sobrevivente que chamamos de gatilhos. São inúmeros, seja dentro de casa ou fora de casa, lugares específicos, viagens é uma infinidade deles.

O meu dia a dia não é fácil e tenho a minha sanidade abalada muitas vezes.

Ao longo de sua curta vida, Pietro estudou em 3 escolas diferentes. Havia uma certa dificuldade de adaptação por parte dele, então busquei dentro das minhas possibilidades, escolas em que ele se sentisse melhor.

Na infância ele estudou em uma escola em que ficou muito bem até o 1o ano do Fundamental 1, aí algo mudou, começamos a sentir o desencaixe.

Então na pré-adolescência mudamos de escola, e por sorte vários amigos da 1a escola mudaram para esta 2a também, achei que estava tudo certo, que estava tudo bem, não estava nada certo, aliás muito errado.

O seu processo de agravamento da depressão piorou.

Fui atrás de uma 3a escola, e ele ficou melhor, foi muito bem acolhido, porém veio a pandemia, tudo mudou da noite para o dia.

Todas essas escolas ficam próximas de onde moro, o que é natural, mas após essa tragédia passei a evitar sair em horários específicos.

Os uniformes das 3 fases e escolas do meu filho se esbarram pelo bairro, imagine vendo crianças na infância, na pré-adolescência e no auge da adolescência passando por mim.

Aliás não imagine, não desejo isso a ninguém. O uniforme é um símbolo, é o marco da vida escolar de um filho ou filha, e quando meu filho começou a usar o seu em cada escola diferente, ele criou sua persona escolar, como todos fazem.

O uniforme se apropria de lembranças, cheiros, cores, falas, sorrisos que não estão mais aqui, a presença dele nas proximidades me destrói, pois é a lembrança de sua vida escolar e da minha vida que foi tão intensa com ele.

Passeios de escola, aniversários, amigos, grupos de trabalho, dias de bom humor, outros de mau humor, de lição de casa…tantas coisas que me demonstram como a minha vida tão emaranhada na vida do meu filho não vai mais acontecer.

Como isso é possível? É o que me pergunto todos os dias, não há resposta.

Mas o uniforme está lá. A última escola que ele estudou até o final do ensino médio, é próxima à minha casa.

Ainda consigo ver o Pepê descendo a rua em direção de casa, passando uma mensagem no celular para pegá-lo na esquina, e sempre com o uniforme de moletom, capuz cobrindo seus cabelos longos mesmo em dias de intenso calor.

É uma saudade que vai te devorando por dentro. Mas a minha cabeça entra em modo sobrevivência e eu sempre pergunto onde está o Pietro, cadê a mensagem para ir buscar?

Minha mente em seu momento mágico responde que ele está viajando, atrasado e já já ele volta com seu uniforme com capuz azul cobrindo parte do rosto.

Vou para casa rápido tentando ver se meu filho está na janela do quarto ou a luz do banheiro está acesa, indicando que ele chegou, mas não há ninguém, só o vazio.

Tenho ainda alguns dos uniformes com as camisetas assinadas pelos amigos de classe comemorando o fim do ano letivo, mas ele agora não vai mais relembrar como a escola era chata ou legal, só eu.

O uniforme provoca muitas lágrimas, às vezes no carro, na farmácia, no supermercado… Eu me agarro a essas lembranças para ver o Pepê me dando tchau e entrando na escola com seu uniforme.

Queria muito receber sua mensagem para ir te buscar na saída, filho.

Mom

Alessandra Arruda – Mãe enlutada pelo filho Pietro – Fundadora da ABRASES

#parasempre18

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3 comentários em “O Uniforme: Memórias e Desafios de Uma Mãe Enlutada”

  1. Obrigada pelo seu texto. A escrita é um jeito de expressarmos a dor, né! Pra quem tem os filhos aqui do lado, seu texto ajuda a gente a agradecer por tudo que temos, como as reclamações por conta dos deveres, a preguiça de ter que estudar e ir pra escola… imaginar a vida sem isso é imaginar a vida sem eles. E dói demais!

  2. Roseli Marques

    Não consigo nem de longe imaginar como é difícil ficar sem um filho. Sempre estar perguntando qdo e como poderia ter feito diferente para que não acontecesse o que aconteceu. Só posso te acolher com o meu sentimento de tristeza mesmo não lhe conhecendo. Só lendo seu depoimento e sua saudade.
    Mas, é preciso viver. Que viva o melhor possível.

  3. Bel carvalho

    Alessandra, seu texto me levou até a faceta de um armário onde estão guardados os uniformes do Daniel e da Alana .

    Retire com cuidado, sentí o cheiro do amaciante, e revi os 2 caminhando até o portão quando ia busca-los na escolinha.

    Os olhos ficam marejados . Senti uma saudade tão forte que doeu.

    Como é simples: vc me levou de volta ao passado onde vejo minhas crias correndo nos canteiros de Ipanema até o Leblon, risos doces, as conversas sobre o dia na escola.

    Dimensionar sua dor não consigo, mas a saudade sei que carregamos juntas. Dentro, bem fundo, no coração.

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